Um rosto na multidão

Você consegue se lembrar em cinco minutos dos nomes de todos os candidatos em quem votou na última eleição? E dos nomes dos Ministros que a Dilma nomeou no seu último mandato?

São tantos os Ministérios e os Ministros que nem ela mesma, a nossa varonil governanta, seria capaz, penso, de relaciona-los nome por nome em seus respectivos cargos.

Prova disso foi ela ter trocado, num discurso no Rio de Janeiro, o nome do Ministro dos Esportes, que eu também não sei quem é, pelo de outro ás da sua intimorata seleção. (Padrão Fifa não há falar-se.)


Logo a Dilma que já deu provas de ter uma memória daquelas que a sabedoria popular costuma associar à dos elefantes... Eu mesmo já a ouvi cantando na Rádio do Moreno sem errar um verso – “amou daquela vez como se fosse a última”. ( Chico Buarque, Construção).

Além do mais, li ontem num jornal, que pesquisadores de Harvard, a universidade americana do falou está falado, concluíram que as pessoas que têm sangue tipo “O”, o que vem a ser o caso da Dilma, são imunes ao mal de Alzheimer – aquela doença que deixa o cara demente, deslocando-o a cada hora da realidade de cada dia.

Num País em que o noticiário, notadamente o da televisão, consagra aos homens públicos em tom de paródia a sentença bíblica “- a cada dia basta o seu cuidado”, transmudanda-o para “a cada dia basta a sua bobagem”, melhor faria a Dilma se passasse a exigir da sua base aliada o tipo sanguíneo dos candidatos a Ministros, nomeando apenas os que têm sangue do tipo “O”.

Quão interessante esta revelação de um Ministro da atual safra da Dilma – crise? Que crise? “Crise é criação da oposição inconformada, que quer desestabilizar o Governo”.

Bem informado, o Ministro denuncia ao País que há mesmo uma oposição conformada, que não está nem aí para os seus deveres cívicos para com o Povo brasileiro.

A oposição inconformada, que segundo as pesquisas é a que reflete a indignação da maioria do eleitorado, essa, sim, segundo o Ministro, inventa crises para desestabilizar o Governo.

“Quem está em crise hoje é o mundo, não somos nós”. E eu não sabia que o Brasil não faz parte do mundo.

Ou não faz mesmo parte desse mundo já tendo decolado do planeta Terra para algum outro ponto mais próximo da via láctea, e haja sonho de valsa e diamante negro, ou é o Ministro que, alem de fazer parte do atual Governo, já integra também alguma expedição extra terrestre.

Dizer que a contração do PIB, o popular produto interno bruto, que resulta da soma em valores monetários, de todos os bens e serviços produzidos no País durante um ano, decorre da Operação Lava Jato é de uma sinceridade que encosta ao ultrajante.

Em seguida, Sua Excelência, dando-se conta de que corria atrás da bola fora da sua área, alegou, ele próprio, impedimento – “bem, eu não sou economista”.

E precisa ser economista para saber que a inflação do período já bate na casa dos 8,47%? Isso, segundo o IBGE. Nos caixas dos supermercados e das farmácias, setores que mais ganham com essa tal de inflação, afora os grandes bancos, é claro, quando aumentam os juros, o índice oficial está bem abaixo do índice real.

O Brasil do planeta terra, que não tem nada a ver com Pindorama, País do futuro, ou, quem sabe, até tem, ignora solenemente que a quebradeira na indústria, leia-se alta desengonçada do dólar, investimentos de quase nada em infra estrutura, fuga de capitais para o exterior, agravando-se a falta de poder aquisitivo da nova classe média para o consumo.

E mais – a crise na saúde pública, no ensino público, o sucateamento das universidades, o terror que é hoje andar nas ruas do País ou o suspense de filme de Hitchcock enquanto se está em casa, ah gente tem tanta coisa que só uma oposição conformada não consegue ver.

Uma fábrica de pneus acaba de dar férias coletivas a 5 mil empregados. 14 mil operários já foram demitidos nas montadoras de automóveis entre maio do ano passado e maio deste ano. As revendas de automóveis cortaram 12 mil empregos. Até a primeira semana do mês que vem 3 mil e 400 empregados terão sido mandados embora de seus empregos na Scânia, uma das maiores fabricantes de caminhões no Brasil.

Queres saber mais? O HBSC, dos maiores bancos ingleses do mundo, agora em fase de realinhamento de estratégias, resolveu ir embora de apenas dois países do planeta Terra – a Turquia e o Brasil porque não resistiu aos prejuízos crescentes causados por uma economia tão fechada como a dos turcos e a nossa.

Esse banco, o HBSC, tem 853 agências no Brasil, 10 milhões de clientes, patrimônio líquido de 10 bilhões e 5 milhões de reais. Já perdeu nos últimos dois anos no Brasil 247 milhões de dólares. A tradução disso – mais desemprego.

Dispensável lembrar que desemprego tira o pão da mesa das famílias e rima logo com desespero. É o que pode dar tempero mais forte aos próximos movimentos de ruas que a indignação em formação silenciosa, por enquanto, não tenhas dúvidas, fará recrudescer.

Não me lembro de todos os nomes dos candidatos em que votei na última eleição como não sei os nomes de todos os Ministérios e Ministros da Dilma nem no último nem neste atual Governo da Dilma. Nem ela.

Edson Vidigal

Nota do editor da Aldeia: O autor, Edson Vidigal, é advogado e ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Conselho da Justiça Federal. Ele escreve às quintas para a Aldeia Global.

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