A disputa pela condução do golpismo brasileiro

Antes de comemorar, a esquerda deveria tentar compreender as razões para o esvaziamento dos atos em favor do impeachment da presidente Dilma. Parece haver uma série de fatores, dentre os quais, a dispersão natural de final de ano. Mas, há um aspecto que deve ser observado: a ausência de uma liderança legítima e confiável, que dê o mínimo de segurança em relação ao dia seguinte ao impeachment – algo que pode ser decisivo no desfecho da atual crise política.
Foto: Revista Fórum
Falar de liderança num processo dessa natureza não significa identificar quem pode, ou não, assumir a presidência caso a tentativa de golpe em curso vingue. Isso é definido pelas normas constitucionais vigentes. A questão, a saber, é se há condições reais para que, uma vez consumado o golpe, uma situação de total instabilidade não se estabeleça. Liderar o day after pressupõe uma agenda, capacidade de articulação política e – como ainda estamos numa democracia – respaldo popular.

Liderança política numa situação como essa pode ser exercida por um ou mais indivíduos e também por partidos ou movimentos. A questão é saber qual programa, que tipo de condução e quais as condições para que uma solução tão extrema, como o impeachment de uma presidente recém-eleita, possa ser viabilizada.

Temer parece estar se esforçando para ocupar o papel de fiador do golpe. Mas, o mesmo jamais foi uma liderança nacional, com algum respaldo popular e capacidade de diálogo com amplos setores sociais. Seu partido é muito mais um condomínio de interesses regionais do que uma força política com um programa nacional consistente.

O vice-presidente é um articulador de bastidores. Sua movimentação nas últimas semanas reforça essa impressão. Não tem carisma e nem apelo popular. Quem pode garantir que um eventual governo sob sua liderança estancaria a atual crise? Sabe-se que não unificaria nem mesmo o PMDB em torno de si.

A crise que se arrasta por todo o ano de 2015, em tese, reforçaria o protagonismo daquele que, por pouco, não saiu vitorioso nas eleições do ano passado. Mas, Aécio já é hoje um político muito menor do que aquele que saiu das urnas em 2014. O tucano viu se dissolver sua base eleitoral e apareceu na última pesquisa Ibope com incríveis 15% de intenção de votos. A falta de seriedade, compromisso e sua incontornável vocação para a disputa da prefeitura do Rio de Janeiro retiram-lhe legitimidade para liderar uma eventual transição.

Nas fileiras tucanas, tampouco, FHC – o presidente mais rejeitado da história, segundo o Datafolha – teria condições de liderar um difícil ambiente pós-impeachment. O PSDB não parece ter aprendido com suas sucessivas derrotas e segue atuando com um nítido recorte elitista, que o afasta da maioria do eleitorado pobre do país.

Insisto que falar de liderança não significa especular quem pode assumir a presidência. Isso é definido pelas regras do jogo democrático. O que importa é saber que grupo de forças e indivíduos reúnem condições para dar estabilidade a uma situação explosiva que emergiria após um eventual impedimento da atual presidente da República. Que agrupamento político, indivíduo ou grupo de indivíduos reúne condições de liderar o pós-golpe?

A resposta a essa questão me parece óbvia. Por enquanto, não surgiu nenhuma liderança capaz de assegurar condições mínimas de governabilidade e coesionamento político do país num eventual dia seguinte ao impeachment. Por isso, levar às ultimas consequências esse processo seria de uma irresponsabilidade sem tamanho. E isso está claro até mesmo para muitos dos que desejam a consumação do golpe, mas guardam alguma lucidez.

Tanto o PMDB quanto o PSDB e suas lideranças têm clareza do caos que poderia se instalar no Brasil após o impedimento. Se houve tranquilidade após o impeachment de Collor foi porque, no curso dos acontecimentos, emergiu uma liderança clara (uma prévia do consórcio PSDB/PFL que governaria o país após 1994), um programa (o plano Real) e, principalmente, porque havia certo consenso de que aquela era a saída adequada.

Não havia partidos, intelectuais, movimentos sociais, parlamentares e lideranças políticas relevantes defendendo Collor. Foi uma situação política que não guarda nenhuma correspondência com a atual.

E na atual cena política, a ausência de liderança é evidente. O PMDB apresentou um programa – que jamais receberia aprovação das urnas – na tentativa de se credenciar junto ao capital financeiro e grande mídia. Não basta. Seria preciso demonstrar sua viabilidade.

Portanto, creio que muitos dos que deixaram de ir às ruas no último domingo o fizeram porque, enfim, perceberam que saindo Dilma, quem assume é Temer. E o vice não é a liderança dos sonhos nem mesmo dos golpistas mais enraivecidos.

Os próximos meses serão de disputa aberta pelo desfecho da atual crise. Certamente, as ruas ocuparão um lugar de destaque. Muitas questões parecem ter influenciado a redução dos protestos contra o governo.

É possível que a abertura do processo de impeachment pelas mãos de Cunha tenha afastado uma parcela mais lúcida dos que haviam ido às ruas nos atos anteriores. A adesão oportunista do PSDB à tese do impeachment talvez tenha desmobilizado mais alguns. Outros parecem ter deixado para ver o que acontece. Mas, a ausência de uma liderança confiável parece ter algum peso nesse processo.

É urgente que a esquerda comece a formular, de fato, uma agenda para o pós-crise. O PT precisa agir de alguma forma e sair da paralisia. Da mesma forma, o governo precisa reassumir a condição de liderança da nação. Antes que alguém o faça.

Por enquanto, os golpistas ainda procuram constituir uma liderança. Há inúmeras contradições e muita dificuldade em definir uma agenda viável para o pós-golpe. Por isso, estão buscando ganhar tempo e estão a se articular. Nada garante que não possam avançar nesse sentido. Cabe à esquerda retomar a ofensiva. Os próximos meses valerão por anos.

Vinicius Wu, Facebook e Portal Fórum

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