Luiz Melodia: O Gato Eletrônico

A minha primeira referência ao nome de Luiz Melodia, recordo bem, nem sei qual razão nem me perguntem (a memória arma dessas peças em nosso inconsciente, por vezes rememora coisas pequenas e prazerosas e recalca dores e agonias): um artigo de Jorge Mautner numa edição da revista Rolling Stone brasileira, intitulado “Luiz Melodia, o gato eletrônico” sobre um jovem negro do Morro de São Carlos que não era sambista, tinha a voz de veludo e subia telhados, feito um gato. Era 1974-75, deveria ter entre 13 e 14 anos.

Trinta e dois anos depois o negro que não era sambista, na simpática acepção de Mautner, lança um disco (Estação Melodia) quase inteiramente dedicado a cantar clássicos do samba (Cartola, Noel Rosa, Geraldo Pereira, Ismael Silva, Jamelão, Osvaldo Melodia), além de uma composição recente de Melodia (Nós dois, Luiz Melodia/Renato Piau) e um soberbo choro (Choro do passarinho, Renato Piau/Euclides Amaral/Rubens Cardoso), dissonante e cheio de bossa, oriundo da safra de jovens músicos, na maioria (nem todos) de classe média e formação clássica, que estão rejuvenescendo, aos troncos e barrancos de qualquer cidade grande, a boemia da Lapa. Para mim, restaurar as rodas de choros se aparenta a uma atividade lúdica, desinteressada, avessa à cultura das drogas pesadas (essa chatice), mas de olho no copo de cerveja, de costas à grande mídia ou a efemeridade do “sucesso” (aquele mesmo falso deus que levou o ídolo popular de Roda Viva, peça teatral de Chico Buarque encenada por José Celso Martinez Correia, a dar um tiro na cabeça). A música é o que interessa. Salve, portanto, os chorões do Rio de Janeiro, e que esse movimento se espalhe Brasil afora. Por favor, se possível, de costas às rádios FM. Sem concessão, pessoal do choro! A flauta, o cavaquinho e o violão – codinomes de sociedade civil (ou mundo da vida, caso queiram os habermasianos) –, são a nossa verdadeira experiência, as lembranças que muito de nós (eu, pelo menos) temos do quintal de nosso avô. Tenho pena de quem não viveu uma roda de samba na infância.

O carioca ex-morador do morro do complexo São Carlos-Estácio de Sá plantou uma carreira de repleta de êxitos na MPB, depois da visitação da vanguarda à casa do ex-jovem no morro (Torquato Neto, Hélio Oiticica, Sérgio Sampaio, Waly Samolão, todos desaparecidos). Passada a fase de visitação de vanguarda, o artista cultivou um público fiel, conquanto sucedendo fases de exposição e eclipse. Viver é um grande perigo, dizia Guimarães Rosa. Assim sendo, mesmo sem fazer um balanço geral exaustivo da trajetória de Melodia, todos sabemos que os ritmos brasileiros sempre compuseram seu catálogo de referências, tanto do compositor como do cantor excepcional. E isso desde o primeiro disco, o antológico Pérola Negra, cuja faixa inicial (como se dizia nos anos 1970), Estácio, eu e você nada mais é que uma bem sucedida tentativa de renovação conceitual do choro, com um andamento mais lento que permite transformar um dos mais sofisticados ritmos brasileiros em um tipo de canção nova, bastante distinto da concepção clássica do choro como canção (reproduzida, por exemplo, em Meu caro amigo, de Chico Buarque e Francis Hime, mais fiel ao cânone do choro).

O choro tem um grande irmão, o samba. Quanto ao samba, o amor de Luiz Melodia sempre me pareceu total: não conheço melhor interprete de Zé Kéti (Diz que fui por aí, CD Acústico). Vale a pena comparar as semelhanças de ritmo e andamento, bem como o trinado da voz de Melodia, em Estação, eu e você e o samba Tive sim (Cartola), abertura do novo trabalho. São gravações de um mesmo interprete. Escutem. É como se em Estácio, eu e você já estivessem contidos in nuce, três décadas antes, os elementos interpretativos (andamento, impostação) antevistos no samba do sempre elegante Cartola. Neste sentido, sequer temos uma evolução (ou involução) de Melodia ao samba. O gato eletrônico de voz de veludo, sempre foi samba, desde o começo, muitas vezes disfarçando.

O gato é esperto como o samba, daí ele prepara o pulo.

Jaldes Meneses, Campo de Ensaio

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