As três almas das ruas

Jaldes Meneses

Previno o leitor que o meu artigo desta semana estará repleto de datas de dias, meses e anos, inevitável quando o objetivo do texto trata-se de elucidar, ao mesmo tempo em que cria marcos de periodização histórica. Nunca fui um desses tecnocratas mágicos, com o dom de iludir através números e gráficos tirados da cartola, por isso espere o leitor uma leitura que ambiciona em contraponto à assepsia de uma pseudo neutralidade axiológica, a leveza de um curto passeio histórico e político de ambição totalizante.

Quem nos conduzirá neste passeio será uma orgulhosa Coruja. Explico-me arguindo Hegel, além do filósofo da dialética idealista, ou exatamente por isso, um imagista genial. Segundo o famoso filósofo moderno, o trabalho da razão na história se aparenta ao mito grego da Coruja de Minerva, uma ave de prontidão noturna. Semelhante à Coruja, a razão também trabalha à noite varando a madrugada, examinando o trabalho diurno dos homens no turno em que eles estão dormindo.

Manifestação de Junho-2013

Da mesma maneira, as explicações causais mais densas do processo político brasileiro inaugurado em junho de 2013, quando intensivas mobilizações empolgaram as ruas de 483 cidades brasileiras (dados da socióloga Maria da Glória Gohn) - principalmente São Paulo e Rio de Janeiro - só começam a se revelar mais claras e inteligíveis à posteriori. Ou seja, depois de cortejadas com as duas recentes mobilizações, em apoio ao governo Dilma, realizado na sexta-feira, 13 de março (convocadas pela CUT e o MST), e o domingo 15, convocado por movimentos em rede dirigidos por liberais conservadores (o Vem Prá Rua/VPR, do empresário Rogerio Cherquer é o exemplo mais notório), em frente única com partidos de oposição como o PSDB, DEM, PPS e outros movimentos em rede da direita mais tradicional e xenófoba.

Um dos poucos consensos analíticos existentes sobre os acontecimentos de junho de 2013 é que eles quebraram o monopólio das ruas conquistado, desde o fim da ditadura, pelos movimentos sociais politicamente ligados ao bloco político no poder, dirigidos pelo PT e aliados. Como se sabe, as manifestações de junho foram originalmente convocadas em rede pelo Movimento Passe-Livre (MPL), ao qual logo aderiram movimentos autonomistas, neoanarquistas e os pequenos partidos de esquerda de oposição ao lulismo (PSOL, PSTU e PCB). Tais movimentos iniciais de junho (os quais estou denominando de primeira “alma") lembravam a dinâmica internacional. Parecia a contrapartida brasileira de ações que ocorreram pouco antes nos Estados Unidos (Occupy Wall Street) ou na Europa (Indignados, Espanha), críticos ao capitalismo financeiro neoliberal, mergulhado em greve crise a partir de 2008.

A “primeira ‘alma'" não reinou sozinha. Logo, o espaço público das mobilizações foi incorporado por mais duas “almas”. A segunda, uma “nova direita” adormecida havia décadas - rigorosamente, desde as Marchas da Família com Deus de março de 1964 -, que de repente saiu do armário direto para o asfalto. O dia preciso do encontro das “duas almas” foi 20 de junho de 2013, quando nova esquerda (primeira alma) e direita (segunda alma) se cruzaram face a face e se confrontaram, inclusive fisicamente. Correu cacete e escorreu e sangue, especialmente porque a “nova direita” se dizia anti-partido e exigia que os militantes abdicassem de suas bandeiras vermelhas.

O samba de Vadico e Noel Rosa chamava-se “coisas nossas”, chamando a atenção para as originalidades nacionais. Deixem-se comparar São Paulo e Nova Iorque. Em 2010, na grande metrópole americana, os yuppies de Wall Street não desceram dos prédios das corretoras e consultorias, cruzaram os poucos metros da Av. Broadway e foram engrossar protestos e dividir espaços no acampamento do Zuccotti Park. Ao contrário, certamente preferiram ficar olhando, entre enfastiados e zombeteiros, o povo alternativo que se apinhava nos acampamentos. Cruzar direita e esquerda no mesmo espaço foi uma particularidade brasileira, uma dessas “coisas nossas” trovadas por Noel. Neste aspecto pontual, se semelhança houver, nos parecemos mais com o conflito de ruas da Primavera Árabe egípcia (liberais de esquerda x Irmandade Muçulmana no início compartilham o mesmo espaço e depois racham, por absoluta incompatibilidade; no mais, por óbvio, Brasil e Egito são processos de cartografias bastante distintas).

O PT, o movimento sindical cutista e os movimentos sociais ligados ao lulismo, que participaram esporadicamente dos acontecimentos iniciais de junho, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, também estavam maciçamente na avenida no histórico 20 de junho de 2013 - admito ter havido em outras cidades, especialmente João Pessoa, dinâmicas diferenciadas, contudo não cabe comentar essa démarche no limite deste artigo. Estou designando este setor de a “terceira alma” de junho, uma alma amargurada e insegura porque entrou no jogo a reboque, dai atuando sempre na retranca.

Havia motivos internos causais na atitude defensiva dessa “terceira alma” (a alma que voltou às ruas no dia 13 deste mês). A história na maioria das vezes é cruel. Daquele dia 20 de junho de 2013 em diante, a governabilidade e a bem-sucedida, até aquele momento, interpelação lulista, dirigida a todos [todos] os segmentos políticos relevantes da sociedade brasileira, começou a ruir. Qual era a interpelação? Evidentemente, não passava pelo horizonte projetual imediato do lulismo fazer reformas sociais de caráter estrutural, nem mesmo fazer uma administração democrática e popular de esquerda. Contudo, ele, Lula, com base na junção de carisma popular e liderança incontestável na ampla aliança política que lhe dava sustentação, logrou produzir um acordo de classe que beneficiou tanto a burguesia interna, através de ações de renovação de nosso setor de capitalismo de Estado, agora em estágio pós-neoliberal, bem como produziu um processo de afluência social relativa ao consumo dos pobres e remediados.

Os fios de causalidades ficam mais claros em retrospectiva, quando a Coruja de Minerva alça o vôo e vai escrutinar na tranquilidade de movimentos da noite o trabalho dos homens.

Foram a segunda e terceira almas de junho que ocuparam ruas brasileiras nos dias 13 e 15 de março. E da primeira alma, a chama de ascendeu junho, o que foi feito dela? Este novo personagem entrará ou não em cena? A coruja está "de camarote" esperando.

Nota do editor da Aldeia: Jaldes Meneses é professor de Teoria da História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e publica o Blog Campo de Ensaio.

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