A medicina tradicional chinesa

Inês Castilho, Outras Palavras

A medicina tradicional chinesa (MTC) trabalha com o fluxo da energia vital, o Qi (pronuncia-se tchi), num corpo humano considerado como parte integrante da natureza. “Um nascimento é a condensação do qi; a morte, sua dispersão” – definiu o filósofo Zhang Zai no século 11.

A energia vital circula através de canais (chamados meridianos), que se ramificam até os órgãos. Estes se relacionam aos cinco elementos da natureza – fogo, terra, metal, água, madeira, os cinco movimentos (Wu Xing) –, que se alternam nos ciclos que regulam a vida na Terra.

Os cinco elementos encarnam as transformações que ocorrem na passagem das estações: expansão e contração, claro e escuro, calor e frio, sons, sabores e emoções diversas. Fogo relacionado ao verão, assim como ao coração e ao intestino delgado, à consciência… Terra, ao verão-prolongado, baço e estômago, força do pensamento… Metal ao outono, água ao inverno, madeira à primavera…


A mudança ocorre pelas forças Yin e Yang, contidas uma na outra – como no símbolo bem conhecido – e em contínua transformação dialética: do vazio ao cheio, do cheio ao vazio, do um ao zero, do zero ao um. Unidade na diversidade. Pensando em física quântica, dualidade matéria e energia, onda e partícula,

Na origem dessa concepção está o Taoísmo, tradição filosófica e religiosa de origem desconhecida, cujo personagem mais proeminente é Lao Tsé, contemporâneo de Confúcio (século 6 a.C.). O Tao (caminho, em chinês) é um princípio universal subjacente a tudo, da criação das galáxias à interação entre as pessoas, segundo o qual a natureza é harmônica e está em constante mutação. Influenciou o budismo e o confucionismo, também fontes da medicina chinesa.

Com presença, sem dores

É com base nesses princípios que o professor Jaime Kuk, especialista em práticas terapêuticas corporais, coordena, no próximo dia 25, uma oficina sobre corpo humano e práticas terapêuticas na medicina tradicional chinesa. A atividade é parte de Outros Saberes – a série de cursos e formações que Outras Palavras realiza em sua redação, em São Paulo. As inscrições podem ser feitas aqui.

Baseada no conceito de que a saúde é fruto do equilíbrio da energia vital, essa concepção oriental de medicina desenvolveu métodos terapêuticos como a acupuntura, bem conhecida no Ocidente; o uso de plantas medicinais, que encontrou solo fértil no Brasil graças à tradição indígena; massagens como shiatsu; e práticas tais como o Tai Chi Chuan e o Lian Gong, que se referem a trabalhos com o ar vital, o Qi, e são genericamente chamados de Qi Gong (pronuncia-se tchi kum). Qi significa ar vital, energia, e Gong, trabalho; daí que Qi Gong significa treinamento, trabalho com o ar vital.

O Qi Gong é um conjunto de práticas corporais que permite o tratamento de doenças, mas principalmente a preservação de um estado de harmonia das funções orgânicas. Criado para proporcionar alívio a dores e estresse, é composto por grande variedade de técnicas e aplicações, todas elas utilizando movimentos corporais sutis e fluidos, aliados à respiração e à intenção mental.

“O Qi Gong terapêutico é projetado para os praticantes se trabalharem e harmonizarem a circulação energética”, explica o professor. “Envolve três aspectos: movimento e postura corretos, respiração correta e presença espiritual ou intenção mental. A sensação de relaxamento que se adquire com sua prática não é relaxamento – é presença. Você tem de estar presente no que faz” – sustenta o professor.

Um pouco de história

Vale a leitura de um pequeno resumo dessa história: “Por pressão inglesa, a China baniu suas tradições médicas em 1912. A revolução comunista liderada por Mao Tsé Tung resgatou o conhecimento milenar e ofereceu seus tratamentos na rede pública de saúde como uma forma de ampliar o atendimento à população. Apesar do regime fechado, Mao estimulou o intercâmbio de formação de especialistas em acupuntura, tui ná e outras técnicas com vários países. Coube a Georges Soulié de Morant um importante papel no resgate das terapias orientais: diplomata, ele viveu na China e traduziu para o francês, sua língua natal, vários livros sobre acupuntura, entre eles A Acupuntura Chinesa, de 1941. A modalidade voltaria à ordem do dia no Ocidente quando o jornalista James Reston, do The New York Times, espalhou nos anos 1970 que, graças às agulhadas precisas, havia tido uma convalescência rápida e indolor depois de operado de apendicite numa viagem à China. Na mesma época, os hippies aderiram às religiões orientais e as difundiram entre os jovens de todo o mundo – a fitoterapia e outras práticas acabaram disseminadas nessa onda.” [2]

Foi assim que comecei a me tratar com acupuntura em Nova York, no início dos anos 70 – na mão de várias mulheres de meia idade falando em chinês -, e nunca mais parei. Não exclusiva, mas principalmente. E agora pratico Qi Gong. Se é que os BRICS vão mesmo aproximar-se, a Índia, com a ioga e a ayurveda; e a China com a medicina, ambas de sabedoria milenar, são tesouros que já temos em mãos.

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