70 anos da gloriosa vitória de um ideal

Berlim

Corria a madrugada do dia 9 de maio pelo horário de Moscou, ainda dia 08 de maio em Berlim e na maior parte da Europa.

A capital da Alemanha estava em destroços. No prédio da administração militar soviética em Berlim, encontravam-se reunidos representantes franceses, americanos e o Marechal do Exército Vermelho Gueorgui Konstantinovitch Jukov.

Diante deles, o Marechal-de-Campo Wilhelm Keitel, o Almirante Hans-Georg von Friedeburg e o General Hans-Jürgen Stumpff, representando o alto comando alemão (OKW), assinaram o instrumento definitivo da rendição nazista que assinalou o desfecho da 2ª Grande Guerra Mundial na Europa.

A derrota alemã significou na prática o fim do conflito, pois embora a capitulação japonesa só tenha acontecido quase quatro meses depois (2 de setembro) a guerra já estava vencida pelos aliados.

O 9 de maio representa a derrocada da ideologia mais reacionária, terrorista e criminosa que o capitalismo produziu, o nazi-fascismo, e o triunfo de todos os democratas que resistiram em nome da salvação da Humanidade.

Marca também uma retumbante vitória dos povos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e do movimento comunista internacional, indubitavelmente os principais protagonistas da luta antifascista.

A simbologia transcendental do 9 de Maio é alvo de intensa disputa ideológica com a máquina de propaganda burguesa, que tenta desvirtuar a verdadeira história, não só da guerra, como do próprio fascismo.

O nazi-fascismo surge no final da primeira década do século 20, como contraponto ao movimento comunista que empolgava trabalhadores de todo o mundo, entusiasmados com a existência da primeira pátria proletária, a URSS.

Em 1922 Benedito Mussolini, com apoio do exército e do governo, alcança o poder na Itália. Em 1933 Hitler é nomeado chanceler na Alemanha.

Os dois eram fanaticamente anticomunistas. Dizia Mussolini: “Somente um país inferior, ordinário, insignificante, pode ser democrático. Um povo forte e heroico tende para a aristocracia”. No livro onde expõe sua visão de mundo, “Minha Luta” (Mein Kampf), Hitler em nenhum momento usa de meias palavras para descrever seus principais inimigos, o marxismo e o judaísmo, que para a sua mente doentia estavam conjurados. “A essência e o objetivo do bolchevismo é a eliminação das camadas da humanidade que até aqui garantiram a liderança, e a sua substituição pela judiaria mundial”, escrevia.

A burguesia via com simpatia a ascensão nazifascista, com a esperança de que este movimento servisse de contenção à gesta revolucionária.

Norman Montagu, presidente do Banco da Inglaterra (o banco central inglês), declarou, durante uma conferência em Nova Iorque em 1934: “Hitler e Schacht (presidente do Reichsbank e ministro da Economia de Hitler) são na Alemanha bastiões da civilização. São os únicos amigos que temos naquele país. Defendem o nosso tipo de ordem social contra o comunismo. Se eles fracassarem, os comunistas chegarão ao poder na Alemanha e, nesse caso, tudo será possível na Europa”.

Outro inglês, Winston Churchill, que mais tarde viria a integrar a frente antifascista, visitou Mussolini em 1927 e era pródigo em elogios ao Duce: “Se fosse italiano, estou seguro de que estaria de todo o coração ao vosso lado, desde o início até ao fim, na vossa luta triunfante contra os apetites e paixões animalescas do Leninismo”.

Já no campo do movimento comunista, o 7º Congresso da Internacional Comunista, em 1935, quatro anos antes de a Alemanha invadir a Polônia, afirmava que o “fascismo era a guerra” e que a luta pela paz estava diretamente ligada à derrota do fascismo, propondo a formação de uma frente única contra a ameaça nazi. Georgi Dimitrov, no encerramento do Congresso, pronuncia vigoroso discurso onde caracteriza o fascismo como a face terrorista do capital financeiro contra a classe operária, quando o setor mais reacionário da burguesia rompe com a democracia burguesa e o parlamentarismo e instaura o poder por meio do terror.

Na arena internacional, Stálin tentou incansavelmente estabelecer alianças militares contra o nazismo, especialmente com a Inglaterra e a França, sempre recusadas, pois havia o desejo secreto de que Hitler derrotasse os comunistas soviéticos.

A inação da Inglaterra e da França diante dos progressos dos fascistas revela bem as verdadeiras esperanças destes países.

Em 1931 o Japão imperial, que mais tarde faria parte do eixo, ocupa a Manchúria chinesa.

Em 1935 a Itália ocupa a Etiópia, único país da África que se manteve independente durante o período colonial.

A Etiópia recorre então à Liga das Nações, antecessora da ONU. A URSS e outros pequenos Estados são os únicos que a apoiam. EUA, Inglaterra e França abandonam o país africano.

A guerra civil espanhola (1936/1939) serviu de laboratório para a Luftwaff alemã, que ajudava o fascista Francisco Franco a derrubar um governo legitimamente eleito.

A Liga das Nações não só não interveio, como o governo francês dificultava de todas as formas o envio de armas da URSS para a República Espanhola, enquanto deixava os aviões de Goering cruzarem seu espaço aéreo para atacar os republicanos.

Em 1937 o Japão, aliado desde 1936 à Alemanha nazista e à Itália fascista no “Pacto Anti-Comintern” volta a invadir territórios chineses.

Em 1938 Hitler anexa a Áustria.

Em seguida reivindica a Tchecoslováquia, com a qual a França tinha um acordo de defesa mútua. Os governos francês e britânico, entretanto, mais uma vez traem um aliado. Em um vergonhoso encontro onde a maior interessada (a Tchecoslováquia) não foi convidada – Conferência de Munique – aceitam retalhar o país em favor de Hitler.

Neste cenário a URSS encontrava-se isolada. Sabia perfeitamente que os estrategistas da França, Inglaterra e EUA sonhavam com uma invasão da Alemanha no Leste Europeu em busca do que ele, Hitler, considerava o “espaço vital da raça ariana”.

Hitler, porém, tinha outros planos. Seu alvo agora era a Polônia, a mesma Polônia dirigida por uma aristocracia ultrarreacionária, que não só apoiou a partilha da Tchecoslováquia, como também a invadiu aproveitando o embalo Alemão. O ditador polaco Pilsudski era simpatizante do nazismo e abertamente antissoviético.

Hitler sabia que a invasão da Polônia seria inaceitável para a França e para a Inglaterra e, diante disto, visando preservar-se ainda de uma guerra em duas frentes, propôs um pacto de não agressão com a URSS, que representou a única saída para os soviéticos, que necessitavam desesperadamente de tempo visando a se preparar para o que consideravam inevitável: a guerra com a Alemanha.

Um político burguês, o gaullista De La Gorce, comenta assim o pacto Molotov-Ribbentrop: “Não há qualquer dúvida de que os acordos de Munique convenceram (os soviéticos) de que a França e a Grã-Bretanha, perante o risco de uma guerra geral, preferiam um compromisso com Hitler e excluíam, em qualquer caso, a opção de lhe resistir com a ajuda da União Soviética. Não há qualquer dúvida de que eles foram sensíveis a todos os indícios que sugeriam que elas deixariam a Hitler as mãos livres no Leste e que a União Soviética deveria então enfrentar, sozinha, as ações alemãs, com o risco de ver Londres e Paris intervirem mais tarde, quando a Alemanha e a Rússia se tivessem mutuamente destruído.(...) Não é correto, como fizeram mais tarde os países ocidentais, invocar qualquer semelhança entre a URSS e a Alemanha para ver nisso o verdadeiro fundamento do pacto germano-soviético. A hostilidade feroz para com o comunismo e a vontade de destruí-lo sob todas as suas formas estavam na própria raiz dos movimentos fascistas. (...) Foi o partido comunista alemão que (Hitler) proibiu e esmagou em primeiro lugar”.

Em 1º de setembro de 1939 Hitler invade a Polônia. Inglaterra e França declararam guerra à Alemanha. A URSS, no dia 17 de setembro, visando estender sua fronteira com a Alemanha a uma distância maior também invade o território polonês, recuperando antigos territórios que haviam sido seus, chegando até à linha de armistício proposta na guerra polonesa-soviética em 1920 pelo então Ministro do Exterior Inglês, Lord Curzon, linha que até hoje demarca a fronteira da Polônia.

Mesmo com a guerra declarada, as hostilidades, durante sete meses, simplesmente não existiam, criando o que os historiadores chamam de “falsa guerra”.

Em abril de 1940 Hitler invade a Dinamarca e a Noruega. Em maio é a vez de Bélgica, Holanda, Luxemburgo e França. Só então começa verdadeiramente, por parte de tropas anglo-francesas, operações militares de vulto contra a Alemanha.

Em junho de 1941 Hitler começa o que seria, para o nazi-fascismo, a realização de um sonho, a destruição da pátria fundada por Lênin, o país do socialismo. Era o início da maior ofensiva militar da história.

Para invadir a URSS Hitler deslocou nada menos do que 178 divisões para a frente Leste. Para se ter uma ideia, os britânicos lutavam contra quatro no Norte da África.

Em outubro, os nazistas já haviam cercado Leningrado e estavam às portas de Moscou.

Nos anos de 1941/1942, as tropas alemãs penetraram em território soviético entre 850 e 1200 km, ocupando uma superfície de quase 2 milhões de km2 onde vivia cerca de 42% da população e que abrigava um terço da produção industrial.

No entanto, acostumado às vitórias relâmpagos (blitzkrieg), o exército alemão desta vez se deparava inesperadamente com outro tipo de resistência.

Como aceitar que a maior máquina de guerra até então conhecida, que facilmente derrotara a França, de tantas tradições guerreiras, fosse encontrar dificuldades para derrotar um país novo, que enfrentara desde seu surgimento invasões e bloqueios comerciais visando fazer ruir a experiência socialista?

A explicação que desagrada os historiadores burgueses, mas da qual eles simplesmente não conseguem fugir, é que os alemães se deparavam com um povo firmemente decidido a preservar sua pátria socialista.

O jornalista estadunidense William Lawrence Shirer, autor do livro “Ascensão e Queda do Terceiro Reich”, era anticomunista. Mesmo assim registrou que os generais alemães da frente russa escreviam relatórios espantados onde diziam nunca ter enfrentado este tipo de resistência.

Um soldado alemão, William Hoffman, combatente em Stalingrando, escreveu em seu diário em 23 de junho de 1941: “Temos uma ótima notícia: nossas tropas chegaram ao Volga e tomaram parte da cidade. Os russos têm apenas duas opções: recuar ao longo do rio Volga ou se render. Na verdade, verificamos algo incompreensível. Enquanto nossas tropas do Norte tomaram a cidade e chegaram ao Volga, as divisões russas no Sul continuam resistindo duramente. Eles são fanáticos...”

A fibra do povo soviético contou com a liderança firme e abnegada do Partido Comunista. Os comunistas eram os primeiros na linha de frente e o partido perdeu boa parte dos seus melhores quadros.

Stálin destacou-se nesta época dramática pela firmeza e clarividência. As constantes calúnias da propaganda burguesa nunca apagarão este fato.

No dia 7 de novembro de 1941, quando as tropas nazistas estavam a poucos quilômetros de Moscou, alguns comunistas insistiram para que as comemorações da revolução de 25 de outubro (pelo calendário juliano, 7 de novembro pelo calendário gregoriano que usamos) fossem suspensas. Stálin defendeu o contrário. Era importante manter o moral elevado e a comemoração era um sinal de confiança na vitória. Mesmo em uma situação dramática, Stálin faz um discurso sem arroubos de retórica, calmo, argumentando com lógica e plena convicção de que estava no caminho certo, embora nos círculos nazistas e ao redor do mundo a derrota soviética fosse em geral tida como certa. Muitos veteranos soviéticos atribuem a este discurso importância capital.

A liderança soviética, durante a retirada, coordenou uma épica desmontagem e transferência para regiões do Leste (Urais, Sibéria, Ásia Central) de nada menos do que 1.523 empresas, entre elas 1.360 grandes fábricas, a maioria de material de guerra. Resultado, em 1942 a URSS já conseguia produzir mais do que a Alemanha em praticamente todas as categorias de armamento. Neste mesmo ano aconteceram as primeiras contraofensivas.

No dia 16 de janeiro de 1943 os sete exércitos que cercavam Stalingrado (três exércitos alemães, dois romenos, um húngaro e um italiano) capitulam totalmente. É a virada da guerra e o início de uma gigantesca ofensiva que só iria parar em Berlim.

O desembarque da Normandia, apresentado pelo esforço de propaganda burguês como crucial para o rumo da guerra, só acontece em junho de 1944, ou seja, após todas as grandes batalhas que decidiram, na Frente Leste, o curso do conflito.

A URSS viu perecer na 2ª Guerra quase 15% de sua população, cerca de 27 milhões de pessoas. Apenas na batalha de Stalingrado o Exército Vermelho perdeu 1 milhão e 100 mil soldados. O exército dos EUA, em toda a guerra, perdeu 300 mil.

Na França, Grécia, Itália e em todos os países ocupados pelos fascistas foram os comunistas a vanguarda das resistências.

A vitória sobre o nazi-fascismo foi a vitória dos aliados, mas sobretudo venceu o movimento comunista, portador de uma ideologia capaz de mobilizar tal força moral que, contra toda a adversidade, enfrentou e derrotou a barbárie e a infâmia, sob a liderança da URSS, que nunca será ovildada na lembrança dos povos, como diz Jorge Amado no “Canto à URSS”.
Ontem nos defendentes a todos, nos salvaste a todos sem exceção, mesmo aos que hoje se voltam contra ti, pequenos assassinos. / Quando a noite nos cobriu de ignomínia, de medo e de rancor, de prantos e de luto, tu trouxeste a luz do dia livre, amassada pelo sangue dos teus filhos, redimida pela luta que travaste, pela guerra que venceste. / Ontem nos salvaste a todos, sem exceção. Se vivos somos, é a ti que devemos; se comemos, esta comida nos foi dada pelas vidas que deste em sacrifício; se bebemos, essa água é água tua de uma fonte que abriste com fuzis. / Foram teus filhos, teus soldados, que nos deram esse dia de hoje que vivemos, e que nos dão a certeza de vivermos esse dia de amanhã com que sonhamos. / Ontem nos salvaste a todos, sem exceção, União Soviética, mãe, irmã, amada minha. (Jorge Amado)
Vermelho, Editores

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