Gustavo Gollo: Conexões (Efeito Borboleta)

Se colocarmos a mão no fogo nos queimaremos; certas conexões causais são bastante óbvias. Outras não são óbvias.

O enigmático “efeito borboleta” pode ser compreendido assim. Usualmente, quando alteramos uma causa, alteramos, proporcionalmente, sua consequência. Eventualmente, no entanto, pequenas alterações na causa podem ser amplificadas, ocasionando consequências inesperadas, muito maiores que a original. Vejamos.
Efeito Borboleta
Imagem: Jornal GGN
Imaginemos uma formiga buscando alimento quando um galho de árvore cai interceptando seu caminho. Consideremos que ela tenha duas alternativas equivalentes; seguir por um lado, ou por outro. Se ela segue por um lado, nada especial acontece, e a queda do galho se dissipa sem que faça qualquer diferença, no futuro, que o galho tenha caído, ou não; tudo acabará ocorrendo do mesmo modo. A maioria dos fenômenos é desse tipo, acabando por desvanecer com o tempo, sendo irrelevante ter acontecido. Se a formiga segue pelo outro lado, no entanto, ela será interceptada por uma criancinha e a picará. A picada causará o choro da criança apressando, por isso, o fim do piquenique e o retorno da mãe para casa, chegando lá intempestivamente e se deparando com situação incômoda que altera toda a sua vida e o futuro de seus filhos. Uma das crianças, tendo crescido em outra cidade, acaba conhecendo um grande professor que a encaminha para determinada área de estudo, na qual acaba por fazer uma grande descoberta tecnológica que afeta todo o planeta.

A sucessão de fatos acima não é implausível, e sempre que retrocedermos de algum evento desse tipo, uma ação humana com consequências drásticas, encontraremos inúmeros detalhes aparentemente irrelevantes, como a opção da formiga, que, caso houvessem sido alterados, teriam ocasionado alterações drásticas no futuro.

Embora alguns fatos sejam desse tipo, cruciais, a imensa maioria deles é irrelevante. Se um peixe deixa sua posição original em um cardume, outro a ocupa, e o grupo segue como se nada houvesse ocorrido.

Cardumes, ou bandos, aliás, costumam ser tão mais rígidos quanto nebulosos, explicarei. Uma bola chutada pode ter sua trajetória fortemente alterada pela presença, ou não, de um poste em seu caminho. Uma abelha também poderá alterar seu caminho por essa razão, mas um enxame não o fará. O enxame contornará o poste em um entre uma infinidade de modos possíveis, sempre com o mesmo resultado final, no entanto. Bandos adquirem uma unidade que os torna especialmente determinados, descrevendo trajetórias pré-determinadas difíceis de ser alteradas. Quanto mais numeroso o bando, mais marcadamente definida será a trajetória do conjunto, sendo irrelevantes todas as inúmeras possíveis alterações individuais na composição do grupo.

Os dois tipos de eventos descritos acima correspondem a extremos, um deles passível de amplificar drasticamente umas ligeiríssimas alterações, outro capaz de impedir que alterações finais ocorram, mesmo sob a pressão de causas significativas. A maioria dos fatos cotidianos se situa entre um e outro desses extremos.

Parece bastante razoável dizer que tudo está ligado, que existe alguma conexão entre todos os eventos, embora tais conexões sejam, habitualmente, irrelevantes. Uma folha de árvore caindo em um ponto na África não causará nenhuma alteração no voo de um pássaro na Austrália. Isso acontece porque as conexões vão se diluindo com o tempo e a distância, como perturbações percorrendo uma rede; acabarão chegando a seu destino de um ou outro modo, mas atenuadas pela distância; viajarão como enxames.

Também parece razoável considerar a existência de fatos “grandes”, ou significativos, e outros menores, ou irrelevantes. Uns tendem a causar numerosas e drásticas consequências, outros a se dissipar sem causar alterações. Difícil imaginar que dois fatos grandiosos, próximos no tempo e no espaço, não interfiram, um no outro.

É provável que em poucas décadas ocorra algo extraordinário, grandiosíssimo, a que chamei “ponto de acumulação” e que foi denominado “singularidade” por outros. O evento decorrerá da recursividade, da retroalimentação de máquinas construindo máquinas cada vez mais poderosas que elas próprias. O resultado imenso desse processo será algo inimaginável, maior que tudo; a maior ocorrência desde o big bang. Talvez sejamos destruídos nesse processo, as chances de que isso ocorra são bem altas. Se sobrevivermos, no entanto, vivenciaremos o maior fenômeno de todos os tempos, desde o início do universo!!!

Parece bem razoável pensar que algo tão grande tenha fortes relações com todas as coisas. Também parece sensato acreditar que fatos importantes que estejam a ocorrer acabem por se relacionar estreitamente com esse, já que tão imenso. (Desconsiderarei, sem justificativas maiores, exceto a ideia de um objeto extremamente pesado acoplado a uma rede, deformando-a, o fato de estar tratando de um efeito, posterior, no tempo, a causas atuais).

Recapitularei minha concepção do ponto de acumulação.

Toda a matéria, mesmo a inanimada tende a se organizar adquirindo capacidade crescente de captar cada vez mais energia, utilizada para se organizar ainda mais. A demonstração termodinâmica desse fato surpreendente é bem recente. Pensava-se até há pouco que tal característica fosse exclusiva dos seres vivos, mas é de toda a matéria, embora em grau muito maior onde há vida.

Durante bilhões de anos a matéria foi se organizando assim, lentissimamente, até o surgimento do primeiro ser vivo, um grande salto metaevolutivo que elevou amplamente a velocidade de acumulação de complexidade.

Mais uns poucos bilhões foram necessários para o surgimento da reprodução sexuada, e de seres multicelulares complexos e diversos, elevando marcadamente o patamar evolutivo e o grau de complexidade dos seres, acelerando fortemente a velocidade evolutiva.

Meio bilhão de anos foi necessário para a ocorrência do grande salto evolutivo seguinte, elevando o patamar evolutivo a uma velocidade sem precedentes, após o surgimento da linguagem, um modo seletivo de acumulação de complexidade capaz de reunir e somar novidades surgidas eventualmente, ainda que distantes no tempo e no espaço, permitindo a acumulação rapidíssima de uma imensa quantidade de inovações tecnológicas utilizadas, frequentemente, para retroalimentar o sistema, permitindo sua utilização para a busca e aperfeiçoamento de novas tecnologias.

Terá decorrido uma centena de anos, apenas, para a aquisição de novo patamar evolutivo, quando computadores serão capazes de, autonomamente, aperfeiçoar e construir computadores ainda mais complexos e potentes que eles próprios, capazes, eles também, de aperfeiçoar e construir outras máquinas em uma sucessão cada vez mais rápida e intensa, até que eles venham a gerar algo novo e impensável, em talvez uma década, e capaz de um autoaperfeiçoamento ainda mais impressionante, a ponto de engendrar sua superação em um ano, produzindo criatura capaz de atingir novo patamar evolutivo em um mês, e outro em um dia, depois hora, minuto, segundo... explodindo tudo em uma imensidão luminosa: o ponto de acumulação.

Tal fenômeno, maior que tudo, é grande a ponto de ganhar uma aura mística, demarcando com nitidez a maior mudança de eras já ocorrida.

Dada a grandiosidade do evento, parece razoável esperar que ele influencie tudo o que ocorra em suas redondezas. Vem-me à mente a figura de uma rede estendida horizontalmente amparando uma esfera extremamente pesada, deformando a rede, e conformando, assim, uma espécie de atrator capaz de sugar o que lhe passe ao redor. A deformação na rede se espalha no espaço, perdendo força lentamente à distância, dada sua imensidão. Consideração análoga se aplica em relação ao tempo.

Assim parece razoável esperar que, fato tão grandioso, já se faça sentir no presente, deformando a conformação das redes existentes, atraindo todos os eventos para desembocar na grande ocorrência, de modo que tudo será sua causa.

O resultado do processo imenso é o de uma grande conspiração universal, a maior de todas, iniciada no princípio do universo, elaborada lentissimamente por bilhões de anos, acelerando-se passo a passo até a chegada a nossos dias, nos quais nossas ações conjuntas se veem compelidas a desembocar, todas elas, no grande evento que se avizinha. Direcionamo-nos à fabulosa ocorrência como um enorme enxame de 7 bilhões de seres, sem que nossas ações individuais possam alterar a rota do grupo que se move inexoravelmente em direção ao acontecimento fenomenal. Qualquer dissidência, qualquer desvio individual na rota, será imediatamente coberta e dissipada pelo movimento dos vizinhos mantendo o grupo em perfeita coesão.

Dissidências, modificações individuais sucessivas e constantes são necessárias para manter a estabilidade do processo, para compelir a conservação da meta inexorável.

Talvez pudesse haver riscos à ocorrência, não poderá. Quero dizer, o evento será arriscadíssimo para a humanidade, talvez sucumbamos; há grandes chances de que isso aconteça. De fato, todas as considerações racionais, todas as ponderações sensatas sugerem fortemente a iminência de um risco insano, quase intransponível, mas capaz de nos enfeitiçar, nos cegar e de nos atrair a ele inexoravelmente. Todos os riscos gerados pelo fato, serão riscos apenas para nós, a ocorrência está garantida, não há riscos de que não venha a acontecer, como se uma conspiração universal fizesse tudo tender a isso, desde o início dos tempos.

Sob nosso ponto de vista, a conspiração universal, sem sujeito, decorre da distorção causada pela imensidão do ponto de acumulação. Trata-se da declividade na rede causada pelo peso imenso do evento avassalador.

Notemos que, em princípio, alguma liderança, entre nós, poderia acordar para o fato, alertar todos os demais, e impedir, de algum modo, que um evento tão arriscado pudesse ocorrer tão descontroladamente. Seria possível, de algum modo, agirmos sensatamente, com o intuito de conter os desenvolvimentos capazes de gerar a ocorrência, limitando, por exemplo, certos processos capazes de apressar o evento.

Embora imaginável, inúmeras circunstâncias impossibilitarão, como sob uma conspiração articulada, que tal contragolpe seja desferido. Acabamos por desvendar, desse modo, a razão de o poder corromper tão sistemática e drasticamente. Aqueles que tenham o poder de, eventualmente, alterar determinados desígnios, serão fortemente pressionados de maneira a agir com o propósito de alimentar o fluxo pré-establecido, ainda que com resultados completamente insanos.

Sob esse ponto de vista, podemos perceber com clareza as razões de estarmos cavando nossa própria cova, destruindo nossas possibilidades de sobrevivência ao destruir nosso planeta. O que poderia justificar a futilidade suicida do consumismo desbragado. Que grau de idiotice justificaria o suicídio da espécie tão futilmente, pelo desejo absurdo de comprar inutilidades?

Comportamo-nos coletivamente como loucos imbecis. Constatamos o fato parva e sumamente impotentes.

Contemplemos o absurdo de nossa condição, cônscios de estarmos caminhando estupidamente, como um imenso rebanho de ungulados, rumo ao suicídio ecológico da espécie. A parvoíce é nossa marca coletiva.

Sendo individualmente, em média, muito menos insensatos que essa coletividade insana, podemos perguntar perplexos o que nos compele a agir de maneira tão absurda. Acabamos percebendo, então, a força imensa do grande atrator constituído pelo ponto de acumulação, plantado umas 4 décadas, apenas, no futuro, enfeitiçando-nos, controlando-nos, idiotizando-nos coletivamente; corrompendo e controlando nossas lideranças nojentas, todas elas, transformadas em marionetes.

A situação político-econômica do planeta, portanto, encontra-se fortemente atada a tal rede. Estamos perto demais do grande momento para que sua influência deixe de se impor fortemente. Temos absoluta clareza de estarmos alterando a composição do ar e dos mares, temos claro de que tais alterações acabarão por inviabilizar nossas condições de vida, restando dúvida apenas, se já passamos, ou não, de um ponto sem volta. Apesar disso, não conseguimos tomar deliberações efetivas para reduzir o consumismo fútil, causador de todos os problemas ecológicos que nos afligem.

Momentaneamente as bolhas financeiras se acumulam, constituirão a maior tragédia econômica vivida pela humanidade. Continuam sendo infladas, no entanto, hoje sempre mais intensamente que ontem; a imagem é patética, a catástrofe iminente.

Ousarei uma análise conjuntural surpreendente, do tipo que precisa ser repetido muitas vezes para poder ser minimamente levado a sério; somos guiados pelo costume, muito mais que pela razão.

O ponto de acumulação constitui o grande atrator, plantado em um futuro próximo, conduzindo todo o fluxo de atividades humanas para si. A atividade econômica humana é o alimento do grande evento futuro. Eventuais reduções na atividade econômica atrasam a ocorrência do evento; a eficiência econômica o alimenta e apressa. Uma grande guerra pode, em princípio, destruir a humanidade e impedir a realização do evento iminente, ou atrasá-lo drasticamente (a superação em curso da maior potência econômica mundial me fez temer e vaticinar uma grande guerra. Considerações sobre a influência desse imenso atrator me fazem mudar de ideia, e acreditar que, de um modo ou outro, o poder acabará sendo repassado a outras mãos sem consequências mais tenebrosas.). A falência econômica do Brasil poderia ocasionar o estouro subsequente da imensa bolha financeira mundial, gerando uma crise social sem precedentes às vésperas das eleições americanas, fermentando as condições para a eleição de um guerreiro insano incumbido de encetar a destruição do oponente em vias de lhe arrebatar das mãos as rédeas com as quais governa o mundo. Tais ocorrências seriam contrárias ao fluxo imposto pelo ponto de acumulação, sendo contrariadas por ele.

A análise acima, embora crua e incipiente, consiste em um esboço preliminar fortemente conjectural e especulativo. Ilustra, no entanto, uma ferramenta de dedução plausível, embora necessitada de naturais ajustes obrigatórios a qualquer técnica nascente.

Ouso, mesmo assim, e em vista disso, preconizar a estabilização político-econômica brasileira e a contenção da catástrofe econômica que se avizinhava, creditando as recentes mudanças nas diretrizes determinadas pelos meios de comunicação às influências do ponto de acumulação. Tendo em mente a conspiração universal tendente ao grande evento, preconizo o alinhamento das forças políticas ao seu fluxo. Como as águas de um grande rio, o fluxo de atração até o ponto de acumulação vai alinhando todos os eventos, cada vez mais intensamente, na mesma direção.

Embora o processo evolutivo seja efetuado às cegas, com altos e baixos, existe uma direção privilegiada, uma certa inclinação. Pelas razões acima, tal tendência ajustou o alinhamento dos ventos soprados do norte, alterando as diretrizes dos meios de comunicação. A proximidade do ponto de acumulação intensifica sua influência. Deliberações que o contrariem serão arrastadas, como as margens de um grande rio que tentassem impedir seu fluxo até o mar.

A insanidade aparente de minha proposta só será dissipada após sua repetição; novas ideias são como novas músicas, devem ser repetidamente ouvidas para que sejam compreendidas.

Sistemas biológicos conseguem otimizar certos fenômenos em graus espantosos. A complexidade das enzimas, por exemplo, e de seu ajuste a suas funções, surpreende vivamente quem contemple o fato. Inúmeras ocorrências biológicas maravilham todos os que as contemplam deixando-os atônitos com as sutilezas alcançadas pelos processos.

As mesmas forças que esculpem tais minúcias nanométricas alinham e determinam nossa política, nossa economia; cabe a nós desvendar seus mecanismos. Nossa sorte está lançada.

Adendo:

Sobre causas e objetivos


Causas são anteriores a suas consequências. Pode parecer que meu argumento acima desrespeita consideração tão elementar, apresentando o ponto de acumulação, um fenômeno futuro, como causa de contingências atuais; explicarei.

Imagine uma grande rede estendida horizontalmente. Sobre essa rede jogam-se algumas esferas muito pesadas. Tais esferas deformarão a rede, gerarão depressões em sua superfície, proporcionais e devidas a seu peso. Se, em seguida, jogarmos pequenas esferas sobre essa rede já deformada, elas tenderão a cair nas depressões geradas pelo peso das grandes esferas, serão, como que, atraídos por elas. Em vista disso, pode-se atribuir às pequenas esferas o objetivo de se juntar às outras, às pesadas. Obviamente as esferas não possuem objetivo nenhum, são guiadas por forças físicas. A suposição desse objetivo, no entanto, permite a inferência da situação final do sistema.

Algo análogo pode ser estabelecido com respeito ao ponto de acumulação, correspondendo ele a um grande atrator ao qual todos os fenômenos acabam por desembocar. Todos os fatos têm o “objetivo” de desembocar nesse ponto, de modo análogo ao “objetivo” das esferas de se reunir às outras, ou ao “objetivo” das águas do rio de desembocar no mar. Trata-se de uma metáfora utilizada para auxiliar a dedução da ocorrência, não pressupondo, obviamente, nenhum animismo.

A tendência ao ponto de acumulação decorre de considerações termodinâmicas, de uma tendência da matéria em direção a uma organização crescente. Essa tendência pode ser descrita como um “desejo”, ou “objetivo” da matéria, no mesmo sentido que o utilizado acima. O conhecimento desse “objetivo” permite a inferência acontecimentos anteriores a ele.

Gustavo Gollo, Jornal GGN

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