Manifestações: ausência reforça perfil elitista

A resistência das famílias de baixa renda em aderir aos protestos contra Dilma Rousseff reforça a observação de cientistas políticos e até de pesquisas de rua de que atos semelhantes ao de hoje têm sido protagonizados, principalmente, por pessoas de classe média-alta.

O grupo de estudos Opinião Pública, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), traçou o perfil dos manifestantes que foram ao ato do dia 12 abril, que reuniu 5.000 pessoas na praça da Liberdade, na capital, mesmo local do ato de hoje. Ao todo, 352 pessoas foram ouvidas, sendo que 53% recebem mais de cinco salários mensais – desses, 29% superam os dez salários de remuneração por mês. A maioria (56%) disse ter ensino superior, e 65% são brancos.

Panelaço

Os panelaços promovidos nas aparições da presidente Dilma em cadeia de TV também não fazem parte da reação da população de baixa renda. Morador do Tupi, na região Norte, José Geraldo Lopes, 54, trabalha como porteiro no Lourdes, bairro nobre da capital. Foi lá que ele conheceu essa modalidade de ato. “Achei que parecia um pagode mal-ensaiado. Cada um tocava de um jeito”, disse ele em tom de deboche.

O dono de um salão de beleza no bairro Jaqueline, na mesma região, Carlos Roberto Rezende, 45, eleitor de Aécio Neves (PSDB) no segundo turno, reclama da falta de emprego. “O movimento no salão caiu tanto que estou fazendo bico de porteiro”, conta.

Para ele, Dilma deve sair “por conta própria”. “Se ela deixa o poder, ajuda o clima”, comenta. Apesar das queixas, Rezende diz que não vai participar dos protestos contra a petista.

Na periferia, moradores estão alheios a protestos


As manifestações que prometem ocupar hoje o país pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff não deverão ser engrossadas por moradores de periferias. Pelo menos essa foi a constatação da reportagem de O TEMPO ao visitar seis regiões de baixa renda em Belo Horizonte e Contagem, na região metropolitana, na última semana. Mesmo demonstrando preocupação com a crise, nenhum dos entrevistados afirmou estar disposto a participar dos atos. Em dois aglomerados, a possibilidade de impeachment aparece, mas não a ponto de provocar reação para os atos.

Nos bairros Tupi e Jaqueline, ambos na região Norte da capital, e em Nova Contagem e Parque São João, em Contagem, as famílias entrevistadas avaliam que os reflexos do mau momento do país ainda não chegaram a suas casas e, portanto, não há motivos para protestos.

Para a maioria, a saída de Dilma não é a solução. A raiz do problema, dizem, é a corrupção, mas eles não atribuem a responsabilidade à presidente. Muitos afirmaram que não veem, neste momento, um nome alternativo ao de Dilma capaz de estancar os escândalos.

É em uma casa simples alugada, de cinco cômodos, que o vigilante José Geraldo Lopes, 54, vive com a mulher e duas filhas, no Tupi. Notícia de protesto, diz ele, “só pela TV”. Eleitor da presidente e com uma renda familiar de três salários mínimos, Lopes diz estar desiludido, mas tem um palpite para a crise: “Temos que deixar a Dilma trabalhar”.

Ele conta que “depois de a vida ter melhorado nos últimos anos”, 2015 está estagnado. “Para mim, todo mundo tem culpa no cartório. Estou desiludido. Não vejo ninguém melhor que a Dilma para assumir” diz o porteiro, que nunca recebeu benefício federal.

O bombeiro Wilson Brito, 42, vizinho de bairro, pensa parecido. “Bom, não está, mas se a gente botou ela lá, tem que deixar ela trabalhar”, diz ele, que não pretende aderir aos atos. “Ainda não tive que baixar meu nível de vida. Só economizo água por causa da crise hídrica”. Com o seu salário e o da mulher, que é carroceira, ele sustenta três filhos e dois netos.

Vivendo de bicos há dez anos, Walter da Silva, 50, fala que não tem do que reclamar. “A vida do pobre melhorou muito”, atesta ele que classifica os protestos como “uma bobagem” e conclui: “Dilma faz o que pode, mas é rodeada de gente que só quer atrapalhar”.

O Tempo

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