Algo estranho na Terra da liberdade

Ainda era uma madrugada fria dessa segunda-feira na Dakota do Norte, estado norte-americano que faz fronteira com o Canadá, quando a jornalista Amy Goodman, principal voz e rosto do Democracy Now!, começou sua reportagem:

“Estamos transmitindo ao vivo de Manda, Dakota do Norte, de frente a corte do condado de Morton, onde várias pessoas aparecerão hoje para enfrentar acusações relacionadas às manifestações de resistência a construção do oleoduto de 3,8 bilhões de dólares da Dakota Access. Dezenas de pessoas que se autodenominam protetoras, e não manifestantes, foram presas nos últimos meses por fazerem oposição à construção do oleoduto […] O condado de Morton também expediu um mandado de prisão para mim, em 8 de setembro, cinco dias depois de o Democracy Now! reportar em vídeo, os guardas da empresa de segurança do oleoduto agredirem fisicamente os protetores pacíficos, em sua maioria nativo-americanos, atacando-os com spray de pimenta e com cachorros. Um deles foi visto com sangue pingando de seu focinho e boca”.
Amy Goodman, no programa de TV e rádio “Democracy Now”: ameaçada de prisão
Amy Goodman, no programa de TV e rádio “Democracy Now”: ameaçada de prisão. Foto: Outras Palavras
A jornalista encerrou sua transmissão dizendo que compareceria à corte e desafiaria a acusação. O caso Dakota do Norte v.s. Amy Goodman baseia-se na cobertura que o site Democracy Now! fez sobre os protestos contra o oleoduto, em 3 de setembro, e o consequente ataque dos seguranças contratados pela companhia proprietária do oleoduto contra os manifestantes pacíficos.

O vídeo viralizou. Chegou a ser visualizado mais de 14 milhões de vezes e foi reproduzido por diversos canais de televisão: CBS, CNN, NBC, MSNBC, NPR. Não havia um único jornalista desses veículos para reportar a violência. Cinco dias depois veio a resposta da Dakota do Norte, um mandado para sua prisão. O crime de Amy Goodman: jornalismo.

Nessa segunda-feira (17/10), ela retornou ao estado para se entregar às autoridades e aparecer diante do juiz John Grinsteiner, que rejeitou a acusação. O mandado de prisão foi expedido por Ladd R. Erickson, um procurador do estado. Ele justificou sua decisão acusando-a de “baderna”, pois não estaria agindo como uma jornalista; já que tudo o que reportou tomava posição que justificava os protestos…

Nos últimos meses dezenas de pessoas que se opõem à construção do oleoduto já foram presas. Apenas no último sábado (15), houve catorze detenções Uma semana atrás, a atriz e ativista ambiental Shailene Woodley, da série “Divergente”, também foi presa. Ela filmou sua própria prisão e transmitiu ao vivo através do Facebook. Até o momento, o vídeo já foi visualizado mais 4.7 milhões vezes.

Talvez o caso mais grave seja o da documentarista Deia Scholesberg, vencedora do Emmy. Ela foi presa na cidade de Walhalla, também na Dakota do Norte, ao filmar uma das cinco ações coordenadas de desobediência civil dos protetores, no começo da semana passada, Os ativistas desligaram manualmente as válvulas de segurança e interromperam o fluxo de areias de alcatrão que vinham do Canadá. Deia teve sua filmagem confiscada pela polícia estadual e, posteriormente, foi acusada de cometer três delitos, que combinados podem resultar numa sentença de até 45 anos. Para dar uma dimensão do absurdo de se prender uma jornalista por fazer seu trabalho, Edward Snowden usou seu Twitter e disse que ele, por tudo o que fez e foi acusado, pode pegar “apenas” 30 anos de prisão.

O oleoduto, ainda em construção mas já operacional em muitos trechos, passa por locais indígenas sagrados e por cemitérios dos ancestrais da tribo Standing Rock Sioux. Seus membros afirmam que a passagem desse oleoduto por essas terras são um risco para o Rio Missouri, fonte de água não só para eles, mas para milhões de norte-americanos, nativos ou não.

Os Standing Rock Sioux tentaram, através de um mandado judicial, interromper permanentemente a construção do oleoduto, mas uma corte federal rejeitou o apelo e reverteu uma decisão anterior de interrupção temporária das obras em um trecho determinado. O fato desencadeou os protestos da última semana e as inúmeras detenções até o momento.

“A tribo vem fazendo tratados com os Estados Unidos por mais de um século e meio, e cada um deles foi violado pelo governo federal. Então não deveria ser surpresa para ninguém que um grupo de juízes federais decidissem contra os Standing Rock Sioux”, escreveu Goodman, na última quinta-feira (13). “Para aumentar a ofensa, a decisão veio, surpreendentemente, no domingo véspera do Dia de Colombo, uma data que muitos povos indígenos enxergam como um dia onde se celebra o início do genocídio contra os povos nativos no Hemisfério Ocidental”.

Vinicius Gomes Melo, Outras Palavras




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